14.12.06

FASCÍNIO PARTE 3 - "MUITO ALÉM DO JANTAR"

Esse conto, com um pouco de sexo, drogas e rock&roll, conforme já disse, foi escrito anos e anos antes de o fato acontecer aqui no Brasil. Conforme já contei também, uma amiga estava produzindo uma espécie de sarau e pediu que as pessoas lhe enviassem seus escritos. Enviei-lhe esse conto. Como era trabalho para ser lido em público e que talvez pudesse ser publicado, escrevi uma nota introdutória explicando e deixando bem claro que era mera ficção e que usei os nomes verdadeiros dos principais personagens porque, por mais que minha imaginação fosse fértil, eu nunca conseguiria criar perfis tão bem acabados para o meu objetivo. Minha amiga leu o conto e a explicação e, inconformada, me ligou:
- Ah, que pena – eu achei que era tudo verdade!!!

Leia o conto e veja se vc também queria que fosse verdade. De minha parte afirmo: não só queria que fosse verdade, como, principalmente, queria ter participado dessa noitada.

Detalhe: uma das heroínas desse episódio - MUITO ALÉM DO JANTAR - tem o mesmo carro e se dedica ao mesmo filósofo da Renata. Seria simples corrigir isso, mas tive e, pior, tenho preguiça.

Feliz Natal e fabulosos anos novos até meados do sex 21 para todos nós!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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Luis ligou para meu escritório dizendo finalmente ter marcado o jantar na casa dele com Roberto para sábado.

Fiquei uma fera. Era o dia do Show. Embora a imprensa tivesse anunciado que a apresentação no Pacaembu seria única, não era verdade. As grandes estrelas, quando passam por aqui, na mesma noite do show no estádio, costumam se apresentar em uma boate para aproximadamente 500 pessoas. Após esse espetáculo, sempre ficam para o coquetel e jantar. Algumas delas são verdadeiras vedetes. O Pavarotti, na primeira vez em que veio a São Paulo, era um sujeito amável e simples. Pediu para ir jantar com todo mundo em um restaurante típico brasileiro. Tomou uma jarra de batida de limão (de pinga) e comeu vatapá. Agora, depois de ter se tornado um mega star, já se comporta como uma prima-dona. Mas, em geral, são simpáticos. Sobretudo comigo, mulher morena, bonita, sensual com tempero brasileiro e classe européia.

Lógico que esses shows para audiências restritas são sempre muito caros. Nunca menos de 2.000 dólares por pessoa. Eu já havia comprado e pago nossos ingressos. Era uma surpresa para Luís. Só lhe contaria no dia. Afinal, a surpresa acabou sendo minha. Imaginei que durante o jantar, a cada cinco minutos, teria vontade de ir ao banheiro, abrir a bolsa, olhar as entradas e chorar um pouquinho. Poderia até fazer isso. Mas não contaria jamais para ele que tinha comprado os ingressos. Pois sabia que estava almejando a vice-presidência da empresa; o jantar bem produzido com o presidente-executivo, sua mulher, por coincidência filha do acionista majoritário, seria decisivo.

E produção era o que não faltava. Luís pediu que eu cuidasse de tudo. Decidimos o cardápio e não tive dúvidas, liguei para o bufê dos grandes jantares de São Paulo e fiz a encomenda. No sábado, por volta das três, chegam com toda parafernália necessária:

- A senhora escolhe sua toalha de mesa preferida e pode ir para o cabeleireiro que a gente se encarrega de tudo, disse o eficiente e ligeiramente pedante chefe da equipe.

Lembrei-lhe novamente o combinado com o gerente: eles deveriam deixar a coisa encaminhada, eu cuidaria do resto. Às seis, não queria mais ninguém em casa – enfatizei.

Eram verdadeiros artistas. A mesa estava linda, os arranjos de flores deslumbrantes, a comida com aroma indescritível e o bar arrumado de tal forma que eu seria capaz de fazer montes de dry martini de olhos fechados.

O interfone toca, oito horas, pontualmente.

Fomos esperá-los na porta do elevador. Surpresa. Gabriela estava sozinha.

- Papai ligou há cerca de três horas convocando Roberto para uma viagem a Buenos Aires. Agora, devem estar quase pousando. Tá vendo o que te esperava na vice-presidência, Luís? Já que o chefe está longe, acabemos com as formalidades. Sorri, enquanto tira o blazer.

Sob o blazer de Gabriela, uma camiseta de seda preta com alças e decote nas costas até a cintura, velando quase nada do corpo escultural. Luís e eu ficamos embevecidos. Tudo era perfeito: costas, ombros, bocas e seios se destacavam.

- Estou fissurada para experimentar seu famoso dry martini, Elza. Posso ajudar você a preparando os copos.


Pega a faca mais afiada e, em menos de três minutos, põe em cada copo verdadeiras mini esculturas de casca de limão e azeitonas. Ao se inclinar sobre o balcão, os duros bicos dos seios se mostram. Seu sorriso maroto olha para mim e Luís.

- À uma noite de prazeres! – Gabriela brinda.

Quando ponho o último disco de Marina, faz um gesto com o indicador pedindo para nos aproximarmos e, fingindo vergonha, sussurra aos nossos ouvidos:

- Parece coisa de fanzoca boba, vocês vão até rir de mim. Essa camiseta aqui, foi a Marina que me deu. Sou muito amiga dela.

Diz isso, levantando o ombro direito, ao mesmo tempo inclina o rosto até o ombro, com os dedos longos, traz a alça aos lábios, fecha os olhos e beija a blusa.

- Fanzoca boba, nada. Olha o que eu tenho aqui na gaveta, falo enquanto apanho os ingressos.

Luís pergunta por que não falei nada. Em poucas palavras, disse saber que ele queria muito oferecer o jantar ao Roberto. Orgulhoso da minha deferência, sorri.

- Não é possível, diz Gabriela. Se você soubesse o que já deu de briga entre mim e o Roberto por causa deste jantar marcado no mesmo dia dos Rolling Stones. Agora, ele lá com meu pai, certamente se preparando para ouvir tango, e nós três aqui. Aqui e com a cabeça no Mick Jagger!

- A gente pode jantar tranqüilamente e ir para lá, expliquei.

- Mas como, o show deve começar em menos de meia hora?, diz Gabriela.

Ela não sabia da história da segunda apresentação e ficou absolutamente enlouquecida com a possibilidade de ver os Stones cara a cara.

- Luís, tira da cabeça a preocupação com a vice-presidência. Você é o preferido do papai e do Roberto. Também é o meu preferido. Eu tenho 50% das ações da empresa. Vice-presidência é assunto encerrado. Vamos ao prazer, comme il faut: com o dever cumprido e a consciência tranqüila!


Diz isso e acende um baseado que tirou da bolsa, magistralmente enrolado em papel de seda lilás.

- Para todos os prazeres! exclama , como se fizesse novo brinde. Fecha suavemente os olhos e se deleita com uma longa tragada.

- Soube que você se dedica ao estudo do Epicurismo de corpo e alma 24 horas por dia, eu disse.

- Ao estudo diria que dedico só minh'alma e manhãs. A tarde, jogo tênis. À noite, delíros. Pensando bem, acho que meus dias são compostos de 24 horas “epicuristas”: teóricas e práticas – explica, passando o baseado, com a marca e o provocante gosto de seu baton, para mim.

Toma um gole de dry martini e prossegue:
- Escrevo textos para revistas daqui e da França. Não me queixo da vida. Posso fazer o que gosto. Esta noite é o que eu chamo de “meta-delírio-triplo”. A gente está aqui no delírio do dry martini, do baseado, que antecede o delírio do jantar, que antecede o delírio dos Stones, que, sabe lá Deus, pode anteceder outros delírios, diz sorrindo e passando os dedos, úmidos e frios, do contato com o copo, na minha nuca e na de Luís.

- Que tal começar o jantar, ou melhor, o segundo ato do delírio?, sugere, sem jeito, Luís.

- Mais dry martini !

Eu e Gabriela falamos exatamente ao mesmo tempo. Rimos os três. Entrelaçamos os dedos minguinhos, como brincam as crianças, cada uma fez seu pedido, contamos até três, dissemos paf as duas ao desentrelaçarmos os dedos.

- Que ótimo, as duas falaram paf, os desejos de vocês vão se realizar. O que vocês pediram? – pergunta Luís.

- Fiz um pedido para nós três. Quando se realizar, agente vai saber que foi graças a ele. Sempre faço esse jogo e na única vez em que coincidiu de os dois dizerem a mesma coisa, eu tinha feito um super pedido que se realizou na mesma semana! – diz Gabriela.


Ela quer aprender a fazer Dry Martini e diz que me ensina a montar esculturas de casca de limão e azeitona.

Com cinco golpes, suaves porém decididos, prepara as azeitonas e as casca do limão; a mesma eficiência na montagem das mini esculturas. Tão rápido, que não aprendi nada.

Os Dry Martinis seguintes fiz lenta e didaticamente a pedido de Gabriela.

- É inacreditável que uma estudiosa de Epicuro, na teoria e prática , desconhecesse essa fórmula de fumo e Dry Martini como aperitivo. Agora sim, acho que já estamos todos com espírito e paladar preparados para o jantar.

A cada movimento na cozinha e na sala., percebia o profissionalismo do pessoal do Bufê . Grudado na porta da geladeira com um imã, um minucioso passo a passo, datilografado naturalmente, explicava como finalizar cada prato. A musse de salsão deveria ser tirado da geladeira 15 minutos antes de ser servida; o linguado na manteiga com camarão, alcaparra, batata cozida , cogumelo selvagem e arroz com ervas, já nos pratos individuais, esquentar 10 minutos no forno baixo.


Ponho a musse na mesa, abro a garrafa de vinho branco e seco, sirvo água mineral nos copos, vou à sala de visitas chamar Luís e Gabriela.

- Que mesa maravilhosa! Você dever ter tido um trabalhão para fazer tudo isso! – elogia Gabriela.

- Você nem imagina! Você nem imagina! Digo e viro o rosto na direção de Luís para me deleitar com seu sorriso cúmplice. Retribuo com uma rápida piscada e um beijinho no ar.

Luz na intensidade certa, música de câmara ao fundo, vinho datado na temperatura ideal, o sabor exótico da musse: perfeição a serviço do prazer. Gabriela admirava cada detalhe.

- Se vocês tivessem um livro para os convidados assinarem, descaradamente roubaria a frase que uma moça escreveu no livro do saudoso restaurante Pirandello: eu quero morar aqui!

Agradecemos o elogio e ela continuou:

- Sabem quem adoraria esse jantar? Epicuro! Imaginem, o homem iria enlouquecer nessa orgia de prazeres dos sentidos. Ainda com direito a Rolling Stones. Jamais ele voltaria pra Grécia depois de nos conhecer. Certamente acrescentaria no livro dos convidados, na frente do que eu escreveria: EU TAMBÉM!!! E assinaria.

Quando estou na cozinha esquentando o linguado, Luís vem pegar mais uma garrafa de vinho. Enquanto saca a rolha, vira o rosto para mim, me agradece pelo sucesso do jantar e me dá um beijinho na boca. Largo o que tinha nas mãos sobre a mesa, viro-me de frente para ele, abraço-o e damos um longo beijo. Excita-me o roçar dos meus seios em seu macio suéter de cashemere vermelho. Gabriela, da porta, nos observa:

- Eu também quero participar desse amorzinho!

Olhamos sorrindo para ela. Aproxima-se passa a mão em torno de nossas cabeças, dá um suave beijo em Luís e um beijo um pouco mais longo em mim, sua língua pressiona suavemente meus lábios e dentes. Entreabro a boca e nossas línguas se tocam por alguns segundos, ela passa a mão pelos meus cabelos e pescoço. Lentamente se afasta. Sorri. Desta vez, para minha agradável surpresa, Luís não fica sem jeito. Com naturalidade, sorrio. Aquela não era a primeira vez que uma mulher me beijava e, com toda certeza, não seria a última.

Volto para sala de jantar com o linguado. Rolling Stones eram o assunto. Conto que os Stones se apresentaram em várias cidades por onde passei, sempre poucos dias antes de eu chegar, ou uma semana depois de eu partir. Isso aconteceu mais ou menos umas dez vezes.

- Quando Luís me deu a notícia de que o jantar seria hoje, já estava imaginando que o destino queria que eu passasse minha vida toda sem usufruir o prazer dos Stones. Mas, graças a você, Gabriela, parece que vamos conseguir contornar os caprichos do destino. Obrigada. Viro-me para ela, fecho os olhos e mando-lhe um terno beijo de longe.

O linguado e a sobremesa, salada de frutas secas, com conhaque e sorvete de creme – especialidade minha – estavam perfeitos.

- Uma revista de faits divers – frescuras como eu chamo – me entrevistou perguntando qual cardápio escolheria para meu último jantar. Sushi, sashimi e doses reforçadas de saquê, respondi. Se me fizessem a mesma pergunta manhã, tenham certeza de que enumeraria todos os pratos e bebidas deste jantar deslumbrante. – diz Gabriela.

Assim que tomamos o último gole de vinho do Porto, levantei-me e disse:

- Let' s go! Mick jagger waits for us!

Fomos no carro de Gabriela, um jaguar 2005 branco. Luís entrega os dois ingressos e quatrocentos dólares ao porteiro que, satisfeito, chama o maitre, passa-lhe 150 dólares, e manda que ele nos arranje uma boa mesa.


Melhor impossível: a mesa central da primeira fila. Ficaríamos a pouquíssimos metros dos Stones. Fomos ao banheiro retocar a maquiagem. Cheiramos quatro fileiras de coca sobre uma longa e fina lâmina de ágata preta com um mini cilindro de prata do arsenal que Gabriela trazia na bolsa. Traçamos a estratégia (infantil, mas poderia funcionar como ovo de Colombo).

- Ao delírio, ela diz, antes de abrir a porta do banheiro. Sorrio olhando fundo em seus olhos. Ela se aproxima. Como o show já estava começando, tínhamos certeza de que dessa vez nada iria interromper nosso beijo.

Voltamos ao salão. Tocavam uma balada lenta. Time is on my Side. Jagger, no primeiro momento, fuzila-nos com seu olhar e, em seguida, entre dois versos, diz, irônico, porem carinhoso: Wellcome. Com um pouco de vergonha, mas envaidecidas com o cumprimento, julgamos que essa passagem facilitaria o plano.

Pode parecer pretensão minha, mas, pelo menos em relação aos homens, sentia que Gabriela e eu roubávamos um pouco a atenção da platéia. Seu eu disser que até entre os Stones percebia-se uma certa fissura por nós duas, serei taxada de megalomaníaca? Mas era o que estava acontecendo. Keith Richards chega perto de Jagger, sussura-lhe algo nos ouvidos, e também nos cumprimenta. Sorrimos todos.

Por em prática a etapa seguinte, agora que o objetivo estava atingido, seria até covardia, mas éramos maquiavélicas.

Gabriela e eu nos entreolhamos. Com um sinal afirmativo, decidimos que o momento estava próximo. No intervalo entre as músicas seguintes, levantamos-nos e, lenta e sincronizadamente , tiramos nossos blasers. Platéia e Stones não desgrudam os olhos de nós duas por uns cinco minutos.

Durante o coquetel, eles cumprimentam, um a um, todos os presentes. Deixam nossa mesa por último. Jagger e Richards perguntam a Luís se podiam juntar-se a nós. Pedimos duas cadeiras ao garçon.

- And a bottle of Borbon, for us.

Não precisamos nem traduzir. Antes do show, os garçons haviam levado garrafas e garrafas de borbon para eles e toda a troupe.

Não se passaram nem quinze minutos, quando a conversa estava fluindo legal, Jagger é chamado pelo empresário para uma festa na casa da filha do patrocinador da turnê. Não esconde sua decepção:

- Todos na banda trabalhamos duro, mas os melhores frutos quem colhe são sempre eles quatro. Isto há quase trinta anos.

Colher frutos? – pensei. Tá certo que era o que eu e Elza desejávamos : transformar aquela noite num imenso pomar. Mas vai ser direito assim lá no primeiro mundo!

Jagger despede-se com um abraço em Luís, um beijo no rosto de Richards e de nós duas com fugazes, porém deliciosos, beijos na boca.

- Finalmente um carro de verdade – diz Richards ao ver o Jaguar de Gabriela. Pensei que aqui no Brasil só houvesse as carroças do Collor pro povão e esses carrinhos japoneses dos yuppies.

- Que tal mais rodada de salada de frutas e bebidas na casa de vocês? – sugere Gabriela.

Gabriela faz uma descrição tão entusiasmada de todo o jantar, sobretudo da salada de frutas, que Richards brinca.

- Vocês não sabiam que os carros ingleses voam nas horas de emergência. Isto é uma emergência, ele diz pro carro e ordena: Voe.

Gabriela acelera para voarmos "dentro da madrugada veloz" sobre a pista da Cidade Jardim.

Luís e eu voltamos para sala com a salada de frutas, Gabriela e Richards beijavam-se. Convidam-nos para sentarmos. Ela sugere um reforço de fumo para aguçar os sentidos.

- Eu sou um cara de sorte. Estou aqui com o que o Brasil tem de mundialmente famoso: suas mulheres e sua maconha.

Dá uma tragada, um beijo em Gabriela, nova tragada, e me beija com fissura. Ao mesmo tempo, Gabriela dá um longo beijo em Luís, que lhe acaricia os seios por dentro da roupa. Fingindo um pouco de indecisão , Gabriela tira a blusa. Antes de recomeçar a beijar meu namorado, aproxima-se de mim pelas costas e, dizendo querer solidariedade, também tira minha blusa e me dá um longo beijo na nuca acaricia-me os peitos e sussura-me aos ouvidos:

- Eu não disse que meus pedidos na brincadeira do pif-paf sempre se realizam.

Richards pega seu copo e brinda:

- Aos prazeres que Mick deve estar desfrutando na casa da filha do empresário!

Morremos de rir do seu sadismo.


Acordamos, os quatro na cama de Luís, às onze horas da noite do domingo.

Gabriela não parava de rir:

- Pretensiosa como ninguém, na minha cabeça, o Caetano tinha feito a música Totalmente Demais para mim. A partir de agora, vou passar a considerar mais essa hipótese.


Às gargalhadas, resumimos a música e traduzimos a teoria de Gabriela para ele, que emendou com uma dúvida :

- Me digam uma coisa, todas as noites de vocês são assim?


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7.12.06

FASCÍNIO PARTE 2 - Cenas - contos rápidos


Informo a todos os leitores do Boca de Trombone que a Renata (combinação de Giselelle Bundchen/Indiana Jones) está feliz da vida e agora só quer saber de gastar o dinheirão que ela ganhou. Fabuloso/ótimo pra ela!!!!!!!!Mas o Fascínio continua. A segunda parte é composta por uns casos que resolvi transformar em pequenos contos.

Na verdade, publiquei esses contos antigos para manter o blog em atividade, pois tô querendo mesmo é fazer uma sessão nova. Mas essa sessão depende de outras pessoas. Antes de começar com esses contos, já havia dado o pontapé incial para a tal nova sessão. Mas depender dos outros é isso....

Na semana que vem, encerrando o Fascínio, publico o conto Muito Além do Jantar

Divirtam-se com as cenas/contos a seguir.

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Fim de tarde gelado. No farol da Groelândia, a menina descalça vem vender biju. “Um é dois e dois é quatro”, diz na janela do carro. Com lógica, e chatice inerente, argumento que se um custa dois, logo, dois custam quatro. E com carinho, apesar da lógica, peço dois e lhe dou quatro cruzeiros. Ela me dá três saquinhos de biju. O sinal ainda vai demorar para mudar. Quero devolver um saquinho. Insisto. Ela abre um sorriso lindíssimo, diz que quer me dar um biju. Desaparece. Nunca mais a vi. Mas aquele momento de fascínio não sairá da minha mente nem do meu coração.
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Eu e Denise, minha namorada, em uma cantina com decoração muito bem cuidada. Na parede, junto à nossa mesa, o retrato da Catherine Deneuve, belíssima . Comento qualquer coisa sobre o retrato e ela diz que não era a atriz. Pergunto ao garçon que nada responde e desaparece. Momentos depois, surge o dono, muito gentil, querendo saber se tínhamos algum problema. Eu explico que não havia problema algum. Apenas que Denise teimava em dizer que a fotografia não era da Catherine Deneuve. O dono do restaurante, um sujeito muito bonito, olha morrendo de saudades para o retrato.
- Ela foi minha mulher...

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Meu pai, no centro da cidade, é abordado por uma amiga que lhe pede para apresentá-la ao Agnaldo. Nesse mesmo instante, passa por eles o Agnaldo. Meu pai o chama, apresenta-os e vai embora. Os dois estão casados até hoje.


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Eu, Denise e meu amigo Mário em um bar. Boquiaberto, ele pergunta se eu não reparei na mulher deliciosa que havia entrado. Denise responde com segurança, tranqüilidade e doçura formidáveis :
- Mario, o Paulo quando está comigo não fica olhando para outras mulheres.

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Eu, no analista, contando mais uma das infinitas brigas com Denise. Ele mostrou que, já velhinho, iria querer visitar-nos e nem poderia entrar em casa, tal seria a quantidade de sapatos voando. Disse ainda que eu, ela e nossa obstinação em continuarmos juntos o fazíamos lembrar-se de um aluno particular que ele teve quando moço. Esse aluno respondia sempre que 7 x 6 era igual a 43. Ele mostrava ao aluno que estava cansado de dizer que era 42. O aluno: “quarenta e dois, quarenta e três, é só querer ter boa vontade para encaixar”.
Meu analista:

- Paulo , sempre que você conta suas brigas com Denise, lembro-me desse aluno e antevejo na casa de vocês sapatos e chinelos voando eternamente.

Sinto ter de reconhecer que o quadro geral de nosso relacionamento dava razão ao meu analista, que, aliás, morreu antes de ver terminado o namoro, e não para o nosso romantismo e segurança.


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Eu e Denise, durante intervalo das sessões de sapatos voando, na portaria de um motel. A recepcionista, que acabara de dar as chaves para o casal do carro da frente, comenta conosco:
- Puxa, a menina fez dezoito anos ontem e já está comemorando!


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Eu e um amigo no Gigeto. Na mesa ao lado, senta-se um ídolo do futebol paulista com uma loira bárbara. Dois ou três marmanjos vão pedir autógrafo ao jogador. Na saída, não tive dúvida. Estendi a caneta e uma folha de papel para a mesa deles e disse:
- Você é a mulher mais bonita daqui. Poderia me dar seu autógrafo. Ela sorriu com a certeza de que acabara de empatar ou ganhar o jogo daquela noite.

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Não tenho a menor idéia do que levou minha empregada a se enganar naquela fria segunda-feira e me acordar umas duas horas mais cedo. O trânsito, uma beleza. Lugar para estacionar era o que não faltava. Não desconfiei de nada. Fui para o colégio, e as portas fechadas. Pergunto as horas. Conformado, para matar o tempo, fico passeando pela rua. Entro na igreja da Consolação, medito, contemplo. Saio, vou tomar um café. Estava na Rua Augusta e uma boate ainda permanecia aberta. Entrei. Encontro um conhecido que, carinhosamente, batendo nas minhas costas diz:
- Aí, hein, Paulinho, altas curtições!
Eu, com ar mais dúbio do mundo:
- Você nem imagina... Você nem imagina...


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Tínhamos nos conhecido havia menos de duas horas. A conversa no bar foi ótima, animada e perfeita, usando código meu e de meu analista, como tabelinha de dois jogadores de futebol que estão juntos depois de muito tempo. Um lugar lindo e a atmosfera entre nós, mágica. Fomos para o restaurante anexo. O maitre entrega um cardápio para ela e outro para mim com mais de cento e trinta pratos. Ela o lê tranqüilamente. E me pergunta o que eu iria pedir. Respondo, “linguado com frutos do mar “. Ela suspira e, extasiada, diz com sua voz grave e sensual:
- Ahh! É muita afinidade... Até o prato é o mesmo!

Pena que todo esse clima e encantamento, passados mais de dois meses, tenha permanecido apenas como encantamento. E ainda só de minha parte.


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Hora do almoço de uma segunda-feira ensolarada no Ibirapuera. Dois meninos pobres vêm alegremente entrando no parque. Um deles, sorrindo e se divertindo, me pede dinheiro. O outro diz:

- A gente veio aqui pra passear e não para pedir!


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Meu amigo Mário é apresentado ao governador do Rio Grande do Norte durante almoço em um sofisticado clube de São Paulo. Sabendo que o político também era formado em medicina, Mario, simpático, saudou-o:

- Muito prazer,sou colega seu.

Automaticamente, o político pergunta:

- O senhor é governador de qual estado?


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Quase hora do jantar. Numa das melhores padarias de São Paulo, a mulher com roupas modestas e a filha compram pãozinho. Ela queria comprar leite também. Encabulada, pergunta ao balconista se só tinha daquele leite que acabara de vender para a senhora que estava à sua frente ( era do tipo A). O balconista diz que sim. Ela desiste de comprar. Sua filha não entende e pergunta por que ela não vai mais levar o leite. Sem jeito, diz que mudou de idéia. Constrangido, assisto à cena. Quero dizer-lhe que leve o leite por minha conta. Mas fico sem ação por poucos instantes. Elas desaparecem.


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Juvenal adorava contrariar Rousseau: o homem é mau por natureza, a sociedade é que apara um pouco as arestas tentando enquadrá-lo, repetia.

Minha amiga chega entusiasmada em casa chamando o filho de dois anos e pouco que brincava comigo.

- Felipe, Felipe, vem ver que bonitinho.

Sob o sol reconfortante de inverno, com as patas esticadas, um gatinho dormia tranqüilamente no galho de uma árvore.

- “Vamô derruba ele”!, propõe Felipe.


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Minha mãe, me ensinando francês, aponta no livro para um ínfimo desenho mal feito de um homem com óculos, bengala e diz:
- Paulo, aveugle, cego, repita:
- Aveugle, coitadinho! Eu disse.

Ela ria tanto que não conseguimos terminar a lição daquela noite.


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Sou recebido no consultório do dermatologista com um revólver na cabeça. Superado o susto, percebo que tanto os médicos que dividiam a clínica, entre eles um psicólogo, quanto os clientes, algumas crianças, e até mesmo os assaltantes estavam em pânico. Se alguém não assumisse o comando, aquilo acabaria em tragédia. Pedi licença para dar uma sugestão. Disse que a partir daquele horário, começariam a chegar montes de gente, outras crianças e que não era necessário ter mais sofrimento ali dentro. Aceitaram a sugestão e, cada vez que a campainha tocava, a enfermeira, sob a mira do revólver engatilhado, avisava que o médico estava fora atendendo emergência. Eram aproximadamente três horas da tarde e meu médico preencheu o cheque que um deles iria descontar, enquanto o outro, com os dois revólveres, ficaria nos vigiando. Como estava demorando muito, pedi novamente a palavra. Fingindo estar cheio com minha intromissão, o líder perguntou o que eu queria daquela vez. Disse que eles deveriam se apressar para descontar o cheque antes do banco fechar. Acatou e foi ele mesmo ao banco, deixando o colega, um desequilibrado, tomando conta das “presas”. Cada vez que uma criança queria tomar água, era um transtorno, gritos histéricos do ladrão, revólveres brandindo o ar. O nariz de um garoto excepcional começou a escorrer; para evitar alterações, ofereço meu lenço. O líder volta do banco com o dinheiro. Pega sua arma, senta-se ao meu lado e começa a dar ordens. Põe um cigarro na boca e procura fósforo nos bolsos. Não encontra.

Com gestos suaves, alcanço um isqueiro que estava ao meu lado, mostro para ele e, gentilmente pergunto:

- Posso acender seu cigarro?

- Cara, você é demais. Você nunca vai ser dar mal em um assalto. Sorrio, bato em seu ombro e, fingindo aborrecimento com a previsão, pergunto:

- Puxa. Você ainda deseja outro assalto para mim?


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Entre minha família e amigos era um repetir uníssono:

- Paulo, joga fora esse sapato!
Fui viajar. Passou um mendigo pedindo coisas. Minha mãe não perdeu a chance e despachou o famigerado.
Poucos dias depois, estou na praça em frente de casa com amigos. Um deles grita:
- Paulo, olha aqui o seu sapato!
O próprio, agora também desprezado por um mendigo.

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Era a primeira vez que saíamos juntos. Na confeitaria, formalmente, pergunto que doce ela queria comer.

Resposta direta:

- Você!

Não seria honesto deixá-los soltos em suas fantasias. Ela comeu só o doce.


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Meu amigo Chico Bafa, tranqüilamente, tricotava em uma mesa do Gigeto. Alguns dias mais tarde, no velho Joly's, enquanto toma seu café de máquina, cantarola uma música do último disco do Caetano Veloso.

- Quer dizer que além de fazer tricô, você ainda canta minhas musicas?- ao seu lado, o próprio Caetano, sorridente, perguntava.


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Denise, na minha casa, folheava um livro de tênis. Pára, deslumbrada, diante de uma foto do Lendl e exclama:

- Que maravilha!

- Denise, é a bolinha que está no bolso do shorts dele, ensino e decepciono.


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A família da minha cunhada costuma dizer que os acontecimentos se dão aos pares. Em 72, fui para Argentina em janeiro e em julho. De lá para cá, não voltei mais. Na primeira vez, comprei uns sapatos bonitos e, principalmente, confortáveis. Em julho estava louco para comprar mais. Volto à loja e peço ao mesmo funcionário que havia me atendido se ele tinha daquele determinado sapato.

- Em janeiro, saí da loja super contente com os mocassins que comprei, o senhor se lembra de mim?

- Mas é lógico! Quem poderia esquecer de pés como os seus?

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Fazia algum tempo que procurava para dar ao filho do Mário determinado chocalho que produzia um som muito agradável. Coincidentemente, estava com o próprio Mário, a menos de cinqüenta metros da minha casa, vejo na vitrine de uma loja de roupas de crianças o que queria. Examino se o som estava legal e digo que vou levar. A vendedora pergunta se quero que embrulhe para presente, Esforço-me para conter o riso e, sério, indago:

- A senhora não está pensando que é para mim, está?

Saímos, deixando na loja funcionários e fregueses às gargalhadas


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Duas famosas cantoras da música popular brasileira haviam terminado o romance entre elas. No Lamas, restaurante-bar da boemia carioca, a que se sentiu abandonada praguejava em alto e bom som:
-Chupei muito a buceta daquela ingrata!!!


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