7.12.06
FASCÍNIO PARTE 2 - Cenas - contos rápidos
Informo a todos os leitores do Boca de Trombone que a Renata (combinação de Giselelle Bundchen/Indiana Jones) está feliz da vida e agora só quer saber de gastar o dinheirão que ela ganhou. Fabuloso/ótimo pra ela!!!!!!!!Mas o Fascínio continua. A segunda parte é composta por uns casos que resolvi transformar em pequenos contos.
Na verdade, publiquei esses contos antigos para manter o blog em atividade, pois tô querendo mesmo é fazer uma sessão nova. Mas essa sessão depende de outras pessoas. Antes de começar com esses contos, já havia dado o pontapé incial para a tal nova sessão. Mas depender dos outros é isso....
Na semana que vem, encerrando o Fascínio, publico o conto Muito Além do Jantar
Divirtam-se com as cenas/contos a seguir.
*************************************************
Fim de tarde gelado. No farol da Groelândia, a menina descalça vem vender biju. “Um é dois e dois é quatro”, diz na janela do carro. Com lógica, e chatice inerente, argumento que se um custa dois, logo, dois custam quatro. E com carinho, apesar da lógica, peço dois e lhe dou quatro cruzeiros. Ela me dá três saquinhos de biju. O sinal ainda vai demorar para mudar. Quero devolver um saquinho. Insisto. Ela abre um sorriso lindíssimo, diz que quer me dar um biju. Desaparece. Nunca mais a vi. Mas aquele momento de fascínio não sairá da minha mente nem do meu coração.
**************************************************************
Eu e Denise, minha namorada, em uma cantina com decoração muito bem cuidada. Na parede, junto à nossa mesa, o retrato da Catherine Deneuve, belíssima . Comento qualquer coisa sobre o retrato e ela diz que não era a atriz. Pergunto ao garçon que nada responde e desaparece. Momentos depois, surge o dono, muito gentil, querendo saber se tínhamos algum problema. Eu explico que não havia problema algum. Apenas que Denise teimava em dizer que a fotografia não era da Catherine Deneuve. O dono do restaurante, um sujeito muito bonito, olha morrendo de saudades para o retrato.
- Ela foi minha mulher...
*********************************************************************************
Meu pai, no centro da cidade, é abordado por uma amiga que lhe pede para apresentá-la ao Agnaldo. Nesse mesmo instante, passa por eles o Agnaldo. Meu pai o chama, apresenta-os e vai embora. Os dois estão casados até hoje.
*********************************************************************************
Eu, Denise e meu amigo Mário em um bar. Boquiaberto, ele pergunta se eu não reparei na mulher deliciosa que havia entrado. Denise responde com segurança, tranqüilidade e doçura formidáveis :
- Mario, o Paulo quando está comigo não fica olhando para outras mulheres.
*********************************************************************************
Eu, no analista, contando mais uma das infinitas brigas com Denise. Ele mostrou que, já velhinho, iria querer visitar-nos e nem poderia entrar em casa, tal seria a quantidade de sapatos voando. Disse ainda que eu, ela e nossa obstinação em continuarmos juntos o fazíamos lembrar-se de um aluno particular que ele teve quando moço. Esse aluno respondia sempre que 7 x 6 era igual a 43. Ele mostrava ao aluno que estava cansado de dizer que era 42. O aluno: “quarenta e dois, quarenta e três, é só querer ter boa vontade para encaixar”.
Meu analista:
- Paulo , sempre que você conta suas brigas com Denise, lembro-me desse aluno e antevejo na casa de vocês sapatos e chinelos voando eternamente.
Sinto ter de reconhecer que o quadro geral de nosso relacionamento dava razão ao meu analista, que, aliás, morreu antes de ver terminado o namoro, e não para o nosso romantismo e segurança.
*********************************************************************************
Eu e Denise, durante intervalo das sessões de sapatos voando, na portaria de um motel. A recepcionista, que acabara de dar as chaves para o casal do carro da frente, comenta conosco:
- Puxa, a menina fez dezoito anos ontem e já está comemorando!
*********************************************************************************
Eu e um amigo no Gigeto. Na mesa ao lado, senta-se um ídolo do futebol paulista com uma loira bárbara. Dois ou três marmanjos vão pedir autógrafo ao jogador. Na saída, não tive dúvida. Estendi a caneta e uma folha de papel para a mesa deles e disse:
- Você é a mulher mais bonita daqui. Poderia me dar seu autógrafo. Ela sorriu com a certeza de que acabara de empatar ou ganhar o jogo daquela noite.
*********************************************************************************
Não tenho a menor idéia do que levou minha empregada a se enganar naquela fria segunda-feira e me acordar umas duas horas mais cedo. O trânsito, uma beleza. Lugar para estacionar era o que não faltava. Não desconfiei de nada. Fui para o colégio, e as portas fechadas. Pergunto as horas. Conformado, para matar o tempo, fico passeando pela rua. Entro na igreja da Consolação, medito, contemplo. Saio, vou tomar um café. Estava na Rua Augusta e uma boate ainda permanecia aberta. Entrei. Encontro um conhecido que, carinhosamente, batendo nas minhas costas diz:
- Aí, hein, Paulinho, altas curtições!
Eu, com ar mais dúbio do mundo:
- Você nem imagina... Você nem imagina...
*********************************************************************************
Tínhamos nos conhecido havia menos de duas horas. A conversa no bar foi ótima, animada e perfeita, usando código meu e de meu analista, como tabelinha de dois jogadores de futebol que estão juntos depois de muito tempo. Um lugar lindo e a atmosfera entre nós, mágica. Fomos para o restaurante anexo. O maitre entrega um cardápio para ela e outro para mim com mais de cento e trinta pratos. Ela o lê tranqüilamente. E me pergunta o que eu iria pedir. Respondo, “linguado com frutos do mar “. Ela suspira e, extasiada, diz com sua voz grave e sensual:
- Ahh! É muita afinidade... Até o prato é o mesmo!
Pena que todo esse clima e encantamento, passados mais de dois meses, tenha permanecido apenas como encantamento. E ainda só de minha parte.
*********************************************************************************
Hora do almoço de uma segunda-feira ensolarada no Ibirapuera. Dois meninos pobres vêm alegremente entrando no parque. Um deles, sorrindo e se divertindo, me pede dinheiro. O outro diz:
- A gente veio aqui pra passear e não para pedir!
********************************************************************************
Meu amigo Mário é apresentado ao governador do Rio Grande do Norte durante almoço em um sofisticado clube de São Paulo. Sabendo que o político também era formado em medicina, Mario, simpático, saudou-o:
- Muito prazer,sou colega seu.
Automaticamente, o político pergunta:
- O senhor é governador de qual estado?
*********************************************************************************
Quase hora do jantar. Numa das melhores padarias de São Paulo, a mulher com roupas modestas e a filha compram pãozinho. Ela queria comprar leite também. Encabulada, pergunta ao balconista se só tinha daquele leite que acabara de vender para a senhora que estava à sua frente ( era do tipo A). O balconista diz que sim. Ela desiste de comprar. Sua filha não entende e pergunta por que ela não vai mais levar o leite. Sem jeito, diz que mudou de idéia. Constrangido, assisto à cena. Quero dizer-lhe que leve o leite por minha conta. Mas fico sem ação por poucos instantes. Elas desaparecem.
*********************************************************************************
Juvenal adorava contrariar Rousseau: o homem é mau por natureza, a sociedade é que apara um pouco as arestas tentando enquadrá-lo, repetia.
Minha amiga chega entusiasmada em casa chamando o filho de dois anos e pouco que brincava comigo.
- Felipe, Felipe, vem ver que bonitinho.
Sob o sol reconfortante de inverno, com as patas esticadas, um gatinho dormia tranqüilamente no galho de uma árvore.
- “Vamô derruba ele”!, propõe Felipe.
*********************************************************************************
Minha mãe, me ensinando francês, aponta no livro para um ínfimo desenho mal feito de um homem com óculos, bengala e diz:
- Paulo, aveugle, cego, repita:
- Aveugle, coitadinho! Eu disse.
Ela ria tanto que não conseguimos terminar a lição daquela noite.
*********************************************************************************
Sou recebido no consultório do dermatologista com um revólver na cabeça. Superado o susto, percebo que tanto os médicos que dividiam a clínica, entre eles um psicólogo, quanto os clientes, algumas crianças, e até mesmo os assaltantes estavam em pânico. Se alguém não assumisse o comando, aquilo acabaria em tragédia. Pedi licença para dar uma sugestão. Disse que a partir daquele horário, começariam a chegar montes de gente, outras crianças e que não era necessário ter mais sofrimento ali dentro. Aceitaram a sugestão e, cada vez que a campainha tocava, a enfermeira, sob a mira do revólver engatilhado, avisava que o médico estava fora atendendo emergência. Eram aproximadamente três horas da tarde e meu médico preencheu o cheque que um deles iria descontar, enquanto o outro, com os dois revólveres, ficaria nos vigiando. Como estava demorando muito, pedi novamente a palavra. Fingindo estar cheio com minha intromissão, o líder perguntou o que eu queria daquela vez. Disse que eles deveriam se apressar para descontar o cheque antes do banco fechar. Acatou e foi ele mesmo ao banco, deixando o colega, um desequilibrado, tomando conta das “presas”. Cada vez que uma criança queria tomar água, era um transtorno, gritos histéricos do ladrão, revólveres brandindo o ar. O nariz de um garoto excepcional começou a escorrer; para evitar alterações, ofereço meu lenço. O líder volta do banco com o dinheiro. Pega sua arma, senta-se ao meu lado e começa a dar ordens. Põe um cigarro na boca e procura fósforo nos bolsos. Não encontra.
Com gestos suaves, alcanço um isqueiro que estava ao meu lado, mostro para ele e, gentilmente pergunto:
- Posso acender seu cigarro?
- Cara, você é demais. Você nunca vai ser dar mal em um assalto. Sorrio, bato em seu ombro e, fingindo aborrecimento com a previsão, pergunto:
- Puxa. Você ainda deseja outro assalto para mim?
*********************************************************************************
Entre minha família e amigos era um repetir uníssono:
- Paulo, joga fora esse sapato!
Fui viajar. Passou um mendigo pedindo coisas. Minha mãe não perdeu a chance e despachou o famigerado.
Poucos dias depois, estou na praça em frente de casa com amigos. Um deles grita:
- Paulo, olha aqui o seu sapato!
O próprio, agora também desprezado por um mendigo.
*********************************************************************************
Era a primeira vez que saíamos juntos. Na confeitaria, formalmente, pergunto que doce ela queria comer.
Resposta direta:
- Você!
Não seria honesto deixá-los soltos em suas fantasias. Ela comeu só o doce.
*********************************************************************************
Meu amigo Chico Bafa, tranqüilamente, tricotava em uma mesa do Gigeto. Alguns dias mais tarde, no velho Joly's, enquanto toma seu café de máquina, cantarola uma música do último disco do Caetano Veloso.
- Quer dizer que além de fazer tricô, você ainda canta minhas musicas?- ao seu lado, o próprio Caetano, sorridente, perguntava.
*********************************************************************************
Denise, na minha casa, folheava um livro de tênis. Pára, deslumbrada, diante de uma foto do Lendl e exclama:
- Que maravilha!
- Denise, é a bolinha que está no bolso do shorts dele, ensino e decepciono.
*********************************************************************************
A família da minha cunhada costuma dizer que os acontecimentos se dão aos pares. Em 72, fui para Argentina em janeiro e em julho. De lá para cá, não voltei mais. Na primeira vez, comprei uns sapatos bonitos e, principalmente, confortáveis. Em julho estava louco para comprar mais. Volto à loja e peço ao mesmo funcionário que havia me atendido se ele tinha daquele determinado sapato.
- Em janeiro, saí da loja super contente com os mocassins que comprei, o senhor se lembra de mim?
- Mas é lógico! Quem poderia esquecer de pés como os seus?
*******************************************************************************
Fazia algum tempo que procurava para dar ao filho do Mário determinado chocalho que produzia um som muito agradável. Coincidentemente, estava com o próprio Mário, a menos de cinqüenta metros da minha casa, vejo na vitrine de uma loja de roupas de crianças o que queria. Examino se o som estava legal e digo que vou levar. A vendedora pergunta se quero que embrulhe para presente, Esforço-me para conter o riso e, sério, indago:
- A senhora não está pensando que é para mim, está?
Saímos, deixando na loja funcionários e fregueses às gargalhadas
*********************************************************************************
Duas famosas cantoras da música popular brasileira haviam terminado o romance entre elas. No Lamas, restaurante-bar da boemia carioca, a que se sentiu abandonada praguejava em alto e bom som:
-Chupei muito a buceta daquela ingrata!!!
*********************************************************************************
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário