Segunda-feira ensolarada à tarde, há cerca de 20 anos. Vi pelo espelho interno do carro que atrás de mim estava grande ídolo do Brasil. Logo adiante, no semáforo vermelho, ficamos lado a lado. Naquela época não havia essa obsessão por vidros negros/à prova de bala, e ambos estávamos de janelas abertas (em tempo, não tenho, nunca tive e nem pretendo ter os famigerados vidros pretos). Pois bem, ele olha para mim. Aceno. Demonstrando imensa irritação pelo meu “imenso atrevimento”, ele levanta o braço esquerdo, como que me mandando passear, ou para lugar muito mais longe, e vira o rosto.
Três anos atrás, estou no Itaim Bibi trancando a porta do carro que acabara de estacionar. Na calçada, ao meu lado, sujeito conhecidíssimo que na hora não consigo identificar. Parece que existe um tempo determinado limite pelas normas de boa convivência – talvez de três segundos ou quatro segundos – que nunca deve ser ultrapassado quando se olha para um desconhecido. Como não se tratava de desconhecido e a sensação de não me lembrar me incomodava, ultrapassei em muito esse tempo. Ao contrário do primeiro, que uma olhadela e um ingênuo aceno foram suficientes para causar-lhe imensa irritação, um sorriso ilumina seu rosto de galã de cinema e, com sotaque carregado do Interior, me saúda:
- Boa tarde!!!!!!!!!!
Retribuo o cumprimento e o sorriso mas ainda leva alguns instantes para me lembrar de quem se tratava.
O primeiro era o Sócrates; o segundo, o Raí.
Durante um tempo fiquei encafifado com a diferença de astral entre eles. Depois me dei conta de que meu “encafifamento”, esse sim, era um despropósito. Na minha família mesmo - entre meus irmãos - há dois Raís, minha irmã mais velha e eu, um Sócrates e outros que, embora não sejam Sócrates, estão a léguas de Raí.
19.1.07
9.1.07
JUVENAL E SILVIA
Sílvia era notívaga inveterada. Já o saudoso jornalista e poeta Juvenal, ao que tudo indicava, parecia não ter tomado conhecimento da invenção do relógio.
Não me lembro exatamente onde fui apresentado à Silvia. Lembro-me, entretanto, que era alta madrugada e ela ainda não havia jantado. Percorremos o centro da cidade em busca de restaurante aberto. Salvo engano meu, apenas o La Farina na praça Júlio Mesquita estava funcionando – prestes a fechar, afinal já eram mais de quatro da manhã.
A conversa dela era ótima. Ela adorava conversar. E ela jantava e conversava com a tranqüilidade e sossego como se fossem oito horas da noite e o restaurante tivesse acabado de abrir. Ela me contou, entre outras coisas, que na juventude havia namorado famoso líder estudantil da década de 60, na época verdadeiro galã, que mais tarde viria a ocupar postos chaves no governo Federal. Você o conhece. Garçons, naturalmente, loucos para irmos embora. Quando, finalmente ela acabou o jantar, o sol brilhava forte. Alguns dias depois, novamente eu e a Síivia ficamos a noite inteira conversando.
O Juvenal, de quem fui sócio em uma micro-editora, constantemente me fazia lembrar a piada do menininho judeu ou turco, dependendo do gosto de cada um, que pedia R$ 50,00 para o pai. O pai argumentava:
- Quarenta? Pra que trinta? Se 20 é muito, leva dez e traz cinco de troco.
Quando marcávamos encontros profissionais para o dia seguinte, Juvenal não explicitava a coisa, mas devia pensar mais ou menos assim:
Oito horas da manhã????, se 10 é cedo demais, a gente marca pra 12, chegamos às 3 da tarde, batemos papo até as 6 e lá pelas 10 da noite a gente começa a trabalhar. Dizia para ele que era isso que se passava na sua cabeça; muito raramente nossas reuniões de trabalho começavam antes de umas quatro ou cinco horas após o horário estabelecido. Era de enlouquecer!!!! Mas tenho saudades do Juvenal, da nossa Editora em uma garagem no Sumaré e do Guengo, outro sócio, que lia pela mesma cartilha do Juvenal ou pelo mesmo relógio do amigo. Bons tempos!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Apresentados Sílvia e Juvenal, lá vai a história:
Muitos anos antes. Eram mais de seis da manhã, Juvenal e Sílvia conversavam na sala de visitas da casa dela. O pai, psiquiatra famosíssimo, aparece lá em cima da escada e pergunta para a filha se já não era hora de ela acabar o bate papo e ir dormir.
Sem jeito, Juvenal se despede. Quando ele já está na Rua, o velho aparece lá em cima na janela e grita:
- Agora vai dormir até às cinco da tarde, né comunista de merda???????
Não me lembro exatamente onde fui apresentado à Silvia. Lembro-me, entretanto, que era alta madrugada e ela ainda não havia jantado. Percorremos o centro da cidade em busca de restaurante aberto. Salvo engano meu, apenas o La Farina na praça Júlio Mesquita estava funcionando – prestes a fechar, afinal já eram mais de quatro da manhã.
A conversa dela era ótima. Ela adorava conversar. E ela jantava e conversava com a tranqüilidade e sossego como se fossem oito horas da noite e o restaurante tivesse acabado de abrir. Ela me contou, entre outras coisas, que na juventude havia namorado famoso líder estudantil da década de 60, na época verdadeiro galã, que mais tarde viria a ocupar postos chaves no governo Federal. Você o conhece. Garçons, naturalmente, loucos para irmos embora. Quando, finalmente ela acabou o jantar, o sol brilhava forte. Alguns dias depois, novamente eu e a Síivia ficamos a noite inteira conversando.
O Juvenal, de quem fui sócio em uma micro-editora, constantemente me fazia lembrar a piada do menininho judeu ou turco, dependendo do gosto de cada um, que pedia R$ 50,00 para o pai. O pai argumentava:
- Quarenta? Pra que trinta? Se 20 é muito, leva dez e traz cinco de troco.
Quando marcávamos encontros profissionais para o dia seguinte, Juvenal não explicitava a coisa, mas devia pensar mais ou menos assim:
Oito horas da manhã????, se 10 é cedo demais, a gente marca pra 12, chegamos às 3 da tarde, batemos papo até as 6 e lá pelas 10 da noite a gente começa a trabalhar. Dizia para ele que era isso que se passava na sua cabeça; muito raramente nossas reuniões de trabalho começavam antes de umas quatro ou cinco horas após o horário estabelecido. Era de enlouquecer!!!! Mas tenho saudades do Juvenal, da nossa Editora em uma garagem no Sumaré e do Guengo, outro sócio, que lia pela mesma cartilha do Juvenal ou pelo mesmo relógio do amigo. Bons tempos!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Apresentados Sílvia e Juvenal, lá vai a história:
Muitos anos antes. Eram mais de seis da manhã, Juvenal e Sílvia conversavam na sala de visitas da casa dela. O pai, psiquiatra famosíssimo, aparece lá em cima da escada e pergunta para a filha se já não era hora de ela acabar o bate papo e ir dormir.
Sem jeito, Juvenal se despede. Quando ele já está na Rua, o velho aparece lá em cima na janela e grita:
- Agora vai dormir até às cinco da tarde, né comunista de merda???????
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